Circo, sexo e repolho
Luiz Roberto Delphim
Apavorado com a perspectiva de ser confundido com o palhaço Carequinha,
semana passada eu e minha criança fomos ao circo. Está certo
que não era um circo qualquer. Para falar a verdade, não
era circo, era o Que - Cir - Que. O nome é muito pouco para definir
o que asistimos. Mas foi uma delícia. E circo bom é como
sexo apaixonado: a gente não precisa ficar explicando; é
gostoso e pronto. Então, que se dane a qualificação.
Lambi os dedos.
Quem perdeu, ou se mata ou imagina. Que - Cir - Que são três
atores, um mastro, uma lona, um palco circular e quinhentas pessoas encantadas.
Que - Cir - Que é um espetáculo empolgante, inteligente e,
sobretudo, de uma simplicidade desconcertante. Que - Cir - Que é
provocante. Numa semana em que a imprensa noticia a indignação
de alguns pais de alunos da Escola Comunitária de Campinas em razão
de uma pesquisa sobre sexualidade, assistir a um espetáculo tão infantil na essência e tão
sensual na forma é renovar a esperança que, a despeito dos
tabus e urobus, nem tudo está perdido.
Como se fosse novidade. Quando alguma coisa acontece para impedir que
se toque num determinado assunto, geralmente é porque ele é
importante para quem o evoca ou inconveniente para quem o evita. Ou ambos.
Foi assim durante a ditadura, é assim com sexo. Educação
e cultura não são coisas importantes, são absolutamente
essenciais. Alguns pais ainda acreditam - e pelo jeito, ensinam - que as
crianças nascem de repolhos. É, a gente vai numa horta, pega
um repolho, tira as folhas e pronto: lá no meio tem um bebezinho.
Fico triste em saber que a história envolve justo alguns pais da Comunitária, uma elite intelectual que respeito tanto, onde tenho amigos e ex-colegas. Fico triste em saber que, de vez em quando, intelecto e hipocrisia andam
juntos. Mas também fico tranqüilo: a mesma excelência
pedagógica que faz da Comunitária uma escola tão especial
coloca-a à margem do raciocínio pequeno que caracteriza os
pais de repolho que, entre uma chiada e outra, não se dão
conta que viver é ir se acostumando com as idéias dos outros
até que elas pareçam nossas. Uns chamam de tolerância,
outros de sabedoria. Menos os pais de repolho: para eles, perguntar ofende.
Mas o caderno é cultural. Graça por graça, prefiro
o circo, que é mais leve. E um tanto da graça de assistir
a um espetáculo desses é olhar para a platéia. Um
monte de adultos encantados e outro monte de crianças excitadas. E como tinha criança! E criança da Comunitária. Será que os pais-repolho
não perceberam a sensualidade do espetáculo? Será
que não perceberam o risico de expor suas crianças à
insinuante e maliciosa atuação daqueles franceses libidinosos?
Olha, melhor assistir ao Xou da Xoxa. Lá não tem esses troços
de sexo, não senhor. Lá é legal. No pior dos casos,
um desenhozinho japonês, desses um puoco mais violentos. Mas acaba
logo. E em seguida vem um comercial de brinquedo, que é para arejar
a cabeça da criançada. E tudo tem o aval da Xoxa, os pais,
não têm porquê se preocupar. Agora, circo, do mesmo
jeito que sexo, é um perigo. Cuidado com eles.
Circo, sexo e repolho. Circo, infelizmente, só de vez em quando.
Repolho até que é bom. Verdade que não dá bebezinhos,
mas dá gases. Então, é como circo: só de vez
em quando. Sexo? Sim, obrigado. Sembre. Sexo pode estar tirando o sono
de alguns pais da Comunitária, mas é gostoso e saudável
como o circo. E ao contrário do repolho e de outras abobrinhas, é
de graça.
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